Como precificar seus produtos sem vender no prejuízo
Chutar o preço ou só dobrar o custo é o erro que mais quebra loja pequena. Veja a conta simples pra descobrir quanto cobrar de verdade — contando material, embalagem, taxas e o seu trabalho.

Toda lojista já passou por isso: você faz o produto, olha pra ele e trava na hora de colocar o preço. Aí faz o que todo mundo faz — olha quanto a concorrente cobra e põe parecido, ou multiplica o custo por dois e pronto.
O problema é que esse chute quase sempre erra pra baixo. Você vende, vende, vende — e no fim do mês o dinheiro não sobra. Não é que você vendeu pouco: é que cada venda estava dando prejuízo e você não sabia.
A boa notícia é que precificar não tem mistério. É uma conta de uma linha só. O que dá trabalho é a parte de antes: saber quanto o produto realmente custa. Vamos por partes.
1. Some tudo que sai do seu bolso por peça
Esse é o custo direto — o que você gasta para cada unidade existir. E aqui entra mais coisa do que a maioria conta:
- Material ou custo de compra — o tecido, a matéria-prima, ou o preço que você pagou no fornecedor.
- Embalagem — caixa, saquinho, papel de seda, laço, cartãozinho de agradecimento. Parece bobo, mas some R$ 3 a R$ 5 por pedido.
- Etiqueta, tag, adesivo da marca.
- Perdas — se de cada 10 peças uma sai com defeito, esse desperdício está no custo das outras 9.
Anote peça por peça. Se você vende muitos itens, comece pelos 5 que mais saem — eles são a maior parte do seu faturamento.
2. Não esqueça o custo que você não vê
Aqui é onde quase todo mundo se perde. Existem gastos que não são de nenhuma peça específica, mas que existem todo mês e precisam ser pagos pelas vendas:
- Internet, luz e água usadas no trabalho
- Aluguel do espaço (mesmo que seja um cômodo da sua casa)
- Anúncios, embalagem comprada em lote, gasolina pra levar no correio
- Ferramentas, mensalidades, taxa do MEI
Some tudo isso num mês e divida pelo número de peças que você vende por mês. Se você tem R$ 300 de custos fixos e vende 30 peças, cada peça carrega R$ 10.
Se você vende pouco, esse rateio fica alto — e é justamente por isso que produto que sai devagar precisa de preço maior.
3. Cobre pelo seu trabalho (isso não é opcional)
Se você faz o produto com as mãos, seu tempo é custo. Não colocar isso na conta significa trabalhar de graça e chamar isso de lucro.
Defina um valor por hora justo — nem que seja pouco no começo — e conte quantas horas cada peça leva. Duas horas a R$ 15 a hora são R$ 30 no custo daquela peça, ponto final.
Isso vale mesmo pra quem só revende: o tempo de atender no direct, embalar e ir ao correio é trabalho, e trabalho se paga.
4. A fórmula (é só uma conta)
Com o custo total na mão, muita gente faz assim: "custo mais 30% e pronto". Está errado — e o erro é grande.
Se o custo é R$ 68 e você soma 30%, chega em R$ 88,40. Mas aí sua margem real sobre o preço é de 23%, não 30%. E isso ainda antes de descontar a taxa da maquininha. A margem tem que ser calculada sobre o preço de venda, não sobre o custo. A fórmula certa é:
Preço = Custo total ÷ (1 − margem − taxas)
Com margem e taxas em decimal (30% = 0,30). Na prática:
- Custo total da peça: R$ 68 (material + embalagem + fixos rateados + seu tempo)
- Taxa de cartão/pagamento: 5% → 0,05
- Margem de lucro desejada: 30% → 0,30
Preço = 68 ÷ (1 − 0,30 − 0,05) = 68 ÷ 0,65 = R$ 104,62
Arredonde pra R$ 105 ou R$ 109. E confira: dos R$ 104,62, saem R$ 5,23 de taxa e R$ 68 de custo — sobram R$ 31,39 limpos, exatamente os 30%. É essa a conta que fecha o mês.
5. Só então olhe a concorrência
Depois de saber seu preço mínimo saudável, aí sim vale pesquisar o mercado. Mas com outra cabeça:
- Se seu preço ficou bem acima do mercado, o problema provavelmente é custo (fornecedor caro, muito desperdício, processo lento) — não o preço.
- Se ficou abaixo, ótimo: você tem espaço pra subir ou pra investir em embalagem e apresentação.
- Nunca copie o preço da concorrente. Você não sabe o custo dela, nem se ela está lucrando — muita gente vende barato porque não fez essa conta.
E lembre: preço baixo demais afasta cliente. Ele passa a mensagem de que o produto é ruim, e ainda atrai quem só quer desconto.
6. Cuidado com os buracos silenciosos
Três coisas que comem a margem sem você perceber:
- Frete grátis sem cálculo. Se você absorve R$ 20 de frete numa peça de R$ 105, sua margem de 30% virou 11%. Ou embuta o frete no preço, ou ofereça grátis só acima de um valor que aguente.
- Desconto no automático. "Faço por R$ 90" tira R$ 15 direto do seu lucro de R$ 31 — quase metade. Antes de dar desconto, saiba qual é o piso de cada produto.
- Promoção sem margem. Antes de anunciar 20% off, refaça a conta com o preço promocional. Se der negativo, não é promoção — é doação.
7. Deixe o preço à mostra
Depois de tanto trabalho pra chegar no número certo, não esconda ele.
Muita loja ainda responde "chama no direct 💬" e some com o preço. Isso parece proteger a venda, mas faz o contrário: a maior parte das pessoas não pergunta — elas passam pro próximo perfil. E as que perguntam viram uma fila de "quanto custa?" que consome seu dia inteiro.
Preço visível filtra cliente, evita constrangimento e passa segurança. Quem chega até você já sabe o valor e vem pra fechar, não pra sondar.
A forma mais simples de fazer isso é ter um catálogo com foto, descrição e preço de cada produto, num link só. A cliente navega, compara, escolhe — e chama você no WhatsApp já decidida.
Comece pelo seu produto mais vendido
Você não precisa refazer a planilha inteira hoje. Pegue um produto — o que mais sai — e faça a conta: custo direto, fixos rateados, seu tempo, taxas, margem. Provavelmente você vai descobrir que ele está mais barato do que deveria.
Corrigido o preço, coloque tudo num catálogo com o valor à vista e mande o link na bio das suas redes.